Entrevista de Boris Kossoy


Vídeo





O acervo do MIS está disponível apenas para consulta local gratuita. O usuário é o único e exclusivo responsável pelo respeito aos direitos autorais, personalíssimos e conexos das obras pesquisadas. É vedada a reprodução de obras originais ou cópias, no todo ou em parte, de qualquer forma e para qualquer finalidade, em conformidade com a Lei 9.610 de 19.02.1998


Para reprodução de qualquer obra, original ou cópia, em quaisquer meios e mídias e para quaisquer fins, e para solicitação de empréstimos, o interessado deverá seguir os procedimentos estabelecidos pela Política de Acervo do Museu. Para informações sobre empréstimo, reprodução e demais usos, entre em contato com a equipe do CEMIS através do Fale Conosco.



--Título:
Entrevista de Boris Kossoy
Número do Item: Número de Registro:
00109MIS00033VD -
Uso e acesso:
Consulta local sem agendamento; Divulgação virtual
Coleção:
00109MIS - Museu da Imagem e do Som
Companhia Produtora:
Museu da Imagem e do Som de São Paulo
Autoridades: Classificação:
Boris KossoyEntrevistado(a)
Agostinho dos SantosTécnico de som
Renato GalonCinegrafista
Teco FrancoCinegrafista
Tuca VieiraFotografia
Ana Maria GuarigliaPesquisa
Daisy PerelmutterPesquisa
Eduardo CastanhoPesquisa
Silvia Maria do Espirito SantoPesquisa
Local de Produção:
São Paulo - São Paulo - Brasil
Data de Produção: Data de Lançamento:
1993 1993
Suporte/Formato:
DVD Cópia
Sistema: Cromia:
NTSC (National Television Standards Committee) Cor
Áudio: Produção:
Estéreo Nacional
Idioma: Classificação:
PortuguêsOriginal
Duração
0h 124min 2s

Sinopse/Descrição:

Boris Kossoy inicia o depoimento contando que começou a fotografar aos 13 anos de idade, e que a expressão plástica sempre esteve presente ao longo da sua formação acadêmica e profissional.


Conta que se formou em arquitetura em 1965, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, atuando nesta área até 1968. Relembra que o momento mais importante da sua carreira como arquiteto se deu quando seu projeto venceu o concurso de decoração “Carnaval no espaço” (1969), promovido pelo Teatro Municipal de São Paulo.


Conta que em 1969 passou a produzir pôsteres em parceria com o artista plástico Wesley Duke Lee, citando como alguns de seus clientes Caetano Veloso, Chico Buarque e Leila Diniz. Considera-se o introdutor dos pôsteres no Brasil, no psicodelismo da revolução cultural que acontecia nos anos de 1960.


Explica que seguiu produzindo pôsteres, após o desligamento de Wesley da empresa, e que a elitização do trabalho, a dificuldade na distribuição dos pôsteres, e a ocupação do mercado por empresas produtoras de pôsteres de má qualidade, fez com que ele desistisse desse trabalho.


Conta que dedicou-se à fotografia entre 1968 e 1969, período em que fundou o Estudio Ampliart, que contava com sua produção fotográfica voltada para o mercado publicitário e de imprensa, e também para sua produção pessoal.


Ao falar sobre seu trabalho de autor do livro “Viagem pelo fantástico” (1971), e considerando sua posição diante à fotografia, Kossoy conta que o início desse trabalho coincide com o período de 1968 a 1969, em que estava dedicado à fotografa e preocupado com a criação fotográfica, pois era um período em que havia a fotografia artística e a fotografia profissional, e que não se ouvia falar em fotografia de autor.


Conta que sua forte necessidade de criação se refletia em seu trabalho profissional, e que ao sentir que a arte do seu trabalho era incompreendida pelo público brasileiro, começou a mandá-los para o exterior, através de Pietro Maria Bardi (1900-1999). Explica que, em 1969 ou 1970, três fotografias de sua autoria foram aceitas para incorporar a coleção do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), sendo esse o empurrão que faltava para deslanchar o trabalho com o livro.


Conta que “Viagem pelo fantástico” (1971) não é livro portfólio, mas sim um livro de contos fotográficos, ou de cartões-postais, com dez estórias que se encadeiam, cujo final apresenta uma questão filosófica resultante do momento político do país relacionado ao momento pessoal em que vivia na época.


Kossoy segue contando que após o lançamento do livro, em 1971, passou quase um ano nos Estados Unidos, onde fez uma exposição na Universidade de Nova Iorque, e que após esse período sentiu necessidade de voltar ao Brasil para fazer pós-graduação em História.


Quando perguntado sobre o início do trabalho de pesquisa no acervo de Hércules Florence (1804-1877), e também sobre a razão que o motivou a revisão de sua formação acadêmica, Kossoy explica que seu contato com a produção de Hércules Florence ocorreu em 1972 quando, ao visitar a casa de Arnaldo Machado Florence, conheceu os manuscritos de Florence, e complementa a explicação dizendo que o episódio Florence foi uma coincidência, e um acidente de percurso, no início da sua trajetória como historiador.


Com relação à questão sobre a retomada de sua formação acadêmica, Kossoy explica que a razão para tal busca se deu a partir de seu interesse pelo trabalho histórico, e pela busca do resgate da memória da fotografia do Brasil. Uma vez que não entendia o motivo da não existência de tal história, ao menos sob o aspecto da história vista, analisada e escrita com cunho científico. E que tais questionamentos foram ocupando cada vez mais tempo de sua vida, incluindo o tempo dedicado à produção fotográfica que, consequentemente, foi ficando de lado.


Kossoy segue contando que o trabalho de investigação do acervo Hércules Florence o fascinou, e que num dado momento deste trabalho percebeu que não havia ninguém para orientá-lo academicamente.


Explica que o trabalho de pesquisa em documentos fotográficos é diferente do trabalho realizado com as fontes escritas ou orais, e que lhe faltava embasamento teórico e metodológico para avaliação da potencialidade dos limites da informação fotográfica. Comenta não ter encontrado publicações acadêmicas nacionais e internacionais sobre este tipo de abordagem histórica.


Observou então que este era um caminho pantanoso do qual os historiadores desviavam, e começou a entender que a história da fotografia internacional era escrita por colecionadores que entendiam sobre as técnicas fotográficas do passado.


Percebeu que existia a história da técnica fotográfica, e no que diz respeito às imagens, entendeu que estas eram desvinculadas do contexto histórico em que foram geradas, pois para os historiadores era mais fácil trata-las desta forma.


Explica que entendia a história da fotografia como um gênero que poderia ser inserido na História da Arte, e que os historiadores tinham medo de entendê-la desta maneira. Explica ter percebido a dificuldade dos historiadores quanto à compreensão da informação do documento fotográfico, e que por isso recorriam à História da Arte e emprestavam dela os métodos arcaicos de classificação e catalogação, que não representam corretamente a fotografia.


Complementa sua explicação dizendo que os historiadores davam ênfase artística à informação fotográfica, ao colocarem as séries fotográficas como ilustrações do texto, ou como anexos das publicações. Kossoy considera tal abordagem equivocada, pois as fotografias são documentos fidedignos assim como os documentos escritos e que, por isso, devem ser tratadas da mesma maneira.


Kossoy explica também que esta preocupação tomou alguns anos de sua vida, e que a partir de então entendeu que as metodologias de abordagem para produção acadêmica da história da fotografia deveriam ser revistas, e finaliza afirmando ser esta a razão que o impulsionou a voltar a estudar.


Com relação ao trabalho de pesquisa ao acervo de Hércules Florence, Kossoy conta que a pesquisa durou dezesseis anos, e que os primeiros estudos sobre o arquivo Florence tiveram início em 1972, com aprofundamento da pesquisa no período de 1972 a 1976.


Segue dizendo que considera a fotografia uma descoberta, e não uma invenção, uma vez que as condições para descoberta da mesma já existiam, se dando apenas por métodos diferentes. Comenta a discussão entre ingleses e franceses a respeito de quem seria o inventor da fotografia, e pondera sobre o surgimento de Hércules Florence neste cenário.


Conta que, em 1976, passou alguns meses nos Estado Unidos para validar, científica e tecnicamente, as experiências de Florence e que para isso contou com o apoio do Rochester Institute of Technology (RIT), que repetiu as experiências conforme as anotações contidas nos manuscritos de Florence. Explica sobre as técnicas e elementos químicos utilizados por Florence em seus experimentos.


Kossoy pontua sobre o surgimento de questionamentos a respeito da fidedignidade dos manuscritos de Florence, pois houve quem falasse que haviam sido escritos posteriormente, e ressalta que Florence utilizou em suas anotações o termo “photography” como nome da descoberta que havia feito. Conta que a fidedignidade dos manuscritos foi comprovada pelo RIT, após análise dos documentos.


Prossegue o assunto contando que, ainda em 1976, foi convidado para apresentar sua tese no III Simpósio Nacional da História da Fotografia, ocasião em que torna público o método fotográfico descoberto por Florence.


Relembra que, de 1976 até a década de 1980, sua preocupação se volta para uma interpretação mais aprofundada, do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico, com relação ás razões que movem o indivíduo à invenção, e comenta que tal preocupação causou impacto em parte dos acadêmicos estrangeiros que queriam saber o que levou Florence a esse invento. Afirma que o aprofundamento nessa questão foi o que mais o interessou na década de 1980.


Kossoy finaliza o assunto comentando que o momento mais relevante do seu trabalho de pesquisa sobre Hércules Florence, se deu em um congresso sobre as múltiplas invenções da fotografia, ocorrido na França, ocasião onde teve a satisfação de ver o retrato de Hércules Florence ao lado dos retratos de Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833), Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851), William Henry Fox Talbot (1800-1877) e Hippolyte Bayard (1801-1887) no folder de divulgação do evento.


Dando sequência ao depoimento, agora com assuntos relacionados ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS), Kossoy conta que integrou o Conselho de Orientação do museu em 1978, assumindo o cargo de diretor da instituição em outubro de 1980, após a saída de Rudá de Andrade, tendo sua gestão até março de 1983.


Conta que, durante sua gestão como diretor do MIS, o Conselho de Orientação foi fundamental para dar apoio ao desenvolvimento da política cultural e da filosofia da instituição, e que as reuniões do Conselho, que abordavam temas relacionados à análise dos processos das doações destinadas ao MIS, ocorriam com objetividade e pragmatismo, fato que dava dinamismo à realização do trabalho.


Quando perguntado se a única fonte de recursos financeiros provinha da Secretaria de Cultura, Kossoy conta que o MIS recebia verbas da Secretaria, assim como as demais instituições, e explica que o valor dos recursos financeiros liberados pela Secretaria ao museu estavam condicionados ao atingimento das metas atribuídas à instituição.


Considerando a Carta de Princípios do MIS (197-), Kossoy conta que o princípio priorizado em sua gestão foi o desenvolvimento do setor de documentação, que se encontrava depauperado. Explica que não conseguiu conhecer o acervo do MIS logo após ter assumido sua diretoria, porque os acervos não estavam catalogados. De maneira que tal trabalho passou a ser realizado ao longo de sua gestão, juntamente com o trabalho de patrimonialização de todo o acervo.


Kossoy ressalta que a catalogação possibilitou a continuidade do trabalho de reprodução de documentos fotográficos, e de depoimentos de história oral, para atendimento de pesquisadores. E destaca a solicitação da Universidade de Harvard, em 1982, para reprodução de depoimentos de história oral.


Com relação ao processo de informatização do acervo do MIS, Kossoy acredita que esse trabalho deve ocorrer em duas etapas, onde a primeira etapa contempla a catalogação dos documentos, e a segunda etapa a informatização em si.


Sobre a criação do setor de história oral, Kossoy conta que trouxe profissionais da Universidade de São Paulo para coordenar diferentes projetos no MIS, e que cerca de 250 depoimentos foram colhidos. Ressalta a relevância da realização desse trabalho, uma vez que os depoimentos foram colhidos entre os anos de 1980 e 1981, durante o regime da ditatura militar no país.


Conta que a programação de cinema do MIS foi a marca de sua gestão, e que as programações tinham que ser submetidas ao Serviço de Censura de Diversões Públicas para que pudessem ser publicadas pela imprensa cultural da cidade. E comenta que o MIS se impôs pela sua atividade, que o desafio era fazer o que ele achava que deveria ser feito naquela época.


Quando perguntado se o recorte do campo de atuação do MIS ficou mais definido durante sua gestão, Kossoy diz que o trabalho foi se fechando na área de produção de documentação oral, na documentação escrita, na programação de cinema e nas pesquisas desenvolvidas pelo museu.


Sobre a produção de exposições, Kossoy cita as exposições fotográficas que, de forma geral, eram pensadas sob uma tríade de ação, quais sejam: a fotografia enquanto forma de expressão pessoal artística, a fotografia como instrumento de pesquisa histórica, sociológica e antropológica, e a fotografia ligada ao setor de documentação.


Com relação às áreas que constituíam o MIS durante sua gestão, e a integração entre tais áreas, Kossoy cita os setores de documentação, fotografia, divulgação, história oral, cinema e vídeo. Conta que o Mis fazia lançamento de filmes, principalmente nacionais, e exibia filmes que naquela época política não poderiam ser exibidos, e que sempre contava com a cobertura da imprensa, e cita o número de visitantes do museu nos anos de 1981 (96.338 pessoas) e 1982 (88.463 pessoas).


Kossoy diz que o MIS se diferencia dos demais museus por sua própria atividade atípica, considerando a documentação como fonte de pesquisa e à difusão ao público de trabalhos de pesquisa realizados pelo museu.


Quando perguntado sobre a repercussão da presença do presidente João Figueiredo no MIS, Kossoy conta que a visita do general Figueiredo ocorreu em 1982 por ocasião da exposição da Revolução Constitucionalista de 32, e que sua presença não teve repercussão negativa porque a imprensa percebeu o tipo de linha ideológica seguida pelo MIS, e por isso demonstrou apoio ao museu.


Sobre o problema de climatização do acervo, Kossoy diz que herdou a questão da gestão anterior e que não conseguiu resolvê-la durante sua gestão. Conta que teve dificuldade em sensibilizar o poder público para fechamento do MIS para reforma, e explica que, dada à gravidade do desastre iminente, teve que optar pela reforma da cabine elétrica que estava sendo tomada pela água. Acredita que esse é um ponto nevrálgico da instituição e faz algumas considerações técnicas sobre uso de equipamentos para controle de climatização de acervos.


Sobre as alterações físicas das instalações do MIS, Kossoy conta que sentiu muito ao saber sobre o desaparecimento da sala Hércules Florence após sua gestão, e que considera a retirada da placa de inauguração da sala um ato de vandalismo, porque a sala foi criada por ato do Secretário da Cultura. Comenta sobre a construção da sala de audiovisual por funcionários do MIS, e sobre a ocupação do Paço das Artes.


Relembra a existência de um processo de interesse político, e comercial, para a instalação de restaurante no MIS, sobre o qual Kossoy e o colegiado se manifestavam contrários por julgarem que não haviam condições técnicas para isso.


Com relação à escolha e a formação do Conselho de Orientação de museus, Kossoy diz que conselhos, diretorias e funcionários não deveriam ser indicados a cargos de museus por razões políticas, porque os indicados nem sempre possuem condições intelectuais, acadêmicas ou culturais para ocupar tal posto.


Explica que a indicação deveria ser feita pelo colegiado, pela comunidade artística, científica e acadêmica, e também pelo público. E afirma que mudanças de quadro de funcionários ocorridas por questões políticas podem significar retrocesso e descontinuidade de trabalhos.


Kossoy conta que o MIS esteve presente na questão do debate da museologia, tentando esclarecer a outros museólogos o tipo de documento e arte que abrigava, ou que reunia para serem expostos, mostrando o que era possível fazer dentro de uma instituição pobre, no Brasil de 1980 a 1982. Finaliza dizendo que o MIS estava afinado às linguagens de vanguarda da época.


Sobre as obras publicadas pelo museu, Kossoy cita os “Cadernos do MIS” (1980 e 1982) que tinham por objetivo revelar o acervo documental do museu ao público. Considera a publicação como uma forma necessária para multiplicação da informação que deve chegar ao indivíduo.


Com relação ao trabalho desenvolvido pelo setor educativo durante sua gestão, Kossoy fala sobre as visitas semanais dos estudantes que se surpreendiam com o acervo, e desmistificam a visão que tinham sobre museus. Dentro deste contexto, explica a criação da sala Hércules Florence para abrigar exposição permanente de acervo, e para reunir câmeras fotográficas antigas com intenção de serem expostas ao público jovem.


Kossoy finaliza o depoimento dizendo que o trabalho em museu requer muita dedicação e tem pouco retorno concreto, e deseja que o MIS continue florescendo como centro de preservação da memória, e que continue preservando sua história.


Gênero:
Entrevista de História Oral
Descritores:
acervo; arquitetura; artes visuais; audiovisual; censura; depoimento; ditadura militar; fotografia; fotógrafo; história da fotografia; museu; política; pôster
Descritores Geograficos:
São Paulo - São Paulo - Brasil
Descritores Onomásticos:
Hércules Florence; Hippolyte Bayard; João Figueiredo; Joseph Nicéphore Niépce; Louis Jacques Mandé Daguerre; Pietro Maria Bardi; Wesley Duke Lee; William Henry Fox Talbot